14 julho 2006
posted by Paulo Vivan at 3:34 PM

PARECE, MAS NÃO É

Outro dia eu comi no pior restaurante vegetariano do mundo.

Sim, eu já me arrisquei entrando num vegetariano, mas veja bem, era quarta-feira. E desde que algum imbecil resolveu decidir que quarta-feira é dia de feijoada, as opções não são muitas para o almoço. Até restaurantes vegetarianos entraram na moda e fazer feijoada de ricota ou legumes. Coisa de gente que come vinagrete sem vinagre e chocolate sem cacau.

E neste pior restaurante do mundo, por todos os lados, cartazes, folhetos, matérias, dvds e fotos tentavam, não só sensibilizar, mas converter você da pior maneira possível ao vegetarianismo. Só isso já me dava vontade de matar o dono e cometer canibalismo. A pior das ofensas, pior de todas estava num papel que encontrei debaixo do meu prato. A versão consciente do "Atirei o Pau no Gato".

"Não atire o pau no gato-to/ porque isso-so / não se faz faz faz/ O gatinho-nho / é nosso amigo-go / não devemos maltratar os animais / miau!"

Veja bem: as rimas e músicas infantis são as únicas coisas nesse mundo que dão sentido às nossas vidas. Se eu atiro o pau no gato é a minha natureza humana. Sou cruel e não tem o que fazer. Até a dona Chica se admirou no berro que o gato deu (lê-se: deu risada). O ser humano é cruel e tenho certeza que essa música foi feita por alguém muito mais cruel, vestindo botas de jacarés e comendo um bife que alimentaria três famílias por três meses e que cada vez que ouve a música, gargalha se engasgando na própria gordura e atira um pau num gato amarrado.

E neste pior restaurante vegetariano do mundo eu comi uma coisa que parecia frango, mas não era, uma coisa que parecia carne, mas não era. E se eu pagasse com algo que parecia dinheiro, e não era?

O que eu quero mesmo dizer é: amanhã tem churrasco. De carne.
 
06 julho 2006
posted by Paulo Vivan at 12:23 PM

CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA

Enquanto o esporte domina o consciente coletivo (brasileiro), muitos críticos literários (aqueles brasileiros que não gostam de futebol) continuam fazendo o que fazem de melhor: críticas. Não gostam de nada, acham tudo fraco e o melhor já passou.

Muitas palavras difíceis acabam numa mesma metáfora escancarada - claro - a mesma discussão de ponto de ônibus.

- O que há de errado com o ônibus que demora?
- Não sei, vai ver é o motorista, vai ver são os passageiros...
- Mas, sabe, o ônibus, na verdade é uma metáfora que representa a
literatura brasileira.
- Sim, e as ruas, o caminho que ela trilha?
- Não podia ser diferente. Ou podia, dependendo do drama interno acumulado.
- E você, o que representa?
- Eu? Só tô esperando o Parque Continental.
- Ah, mas não seria essa espera demasiada passiva da sua parte?
- Eu não tenho carro e moro lá. O que eu posso fazer? Aliás, o que você espera?
- Eu? Bem... Eu sou escritor. Eu espero reconhecimento, talvez?
- Não sei se esse passa aqui.
- Será?
- Pergunta pro cobrador.
- E ele representa o que?
- Acho que os críticos literários.
- E como alguém vira um crítico literário?
- Não sei. Não sei nem como alguém vira um cobrador, quanto menos um
crítico literário.
- É. Dureza.
- É.
(silêncio)
- Mas e a seleção, hein? Que vergonha!