MUSICAL, O MUSICAL
Às vezes acho que sou tolerante demais. Eu pego ônibus lotado, brigo com a família, tenho problemas amorosos, não tenho dinheiro suficiente.
Mas eu não canto meus problemas.
Sabe, todo mundo tem uma vida ruim. A não ser que você esteja lendo esse texto em um notebook com conexão wireless via satélite, que você aproveita a tela de 20 polegadas pra apoiar seu drink enquanto navega pelos mares do Caribe em um iate luxuoso que está sendo perseguido por atrizes pornôs em jet-skis com micos-ninjas-ajudantes. Daí sim, sua vida pode ser legal. Mas o simples fato de você estar na Internet agora já confirma seu fracasso como ser humano. Pense nisso: existem milhares de pessoas lá fora, ocupadas demais escalando montanhas e construindo navios piratas para estar na Internet. Não posso dizer o mesmo de nós.
E mesmo assim você não vê pessoas como nós cantando, vê? Esta noite mesmo, eu finalmente fui naquele maldito Burger King e pedi o maior sanduíche possível, e, quer saber? Esqueceram a maionese. Adimito: eu fui ao banheiro e chorei um pouquinho. Não foi um choro de maricas, mas sim raivosas lágrimas másculas seguidas de urros guturais. E é isso que me separa dos Andrews Lloyds Webers lá fora: eu posso ter meus sonhos destruídos, meu futuro depredado, e sim, eu posso ficar trinta minutos chorando no banheiro, e sim, eu posso também urinar no carro do gerente do Burger King, e sim, eu realmente considero processá-los, mas eu não cantarei sobre meus problemas. O mundo já é uma merda sem eu adicionar minha voz horrenda à cacofonia.
E é isso: eu não respeito quem expressa seus pesares aleatóriamente atráves da música. Sua vida é uma merda? Então pega um número, trouxa, e pare de sapatear.
E outra, sapateado: Quem é que aguenta isso?

