28 abril 2005
posted by Paulo Vivan at 3:05 PM

VOCÊ VIU SÓ O PREÇO DO LEITE?

O leite acabou no café da manha. Isso significa que o cereal ficou incompleto, com pouco leite, seco demais. O achocolatado, então, nem sequer foi umedecido. No futuro, quando não tivermos mais leite, depois que acabar toda a água potável, quando folhas de alface forem cultivadas debaixo de nossas camas – esta deve ser a sensação.

Esse fim do mundo iminente não me deixa relaxar, muito menos me divertir. Como posso tomar meu leite em paz enquanto milhares de pessoas do outro lado do mundo comem terra em vez de frutas frescas e são atacados por vacas carnívoras. Sim, eu leio jornais! Sei o que acontece no mundo. Qual é o preço de um copo de leite? Quantas vidas? Quanto mais famílias terão que sofrer?

Os números são pouco animadores e o juros são altos. A fumaça é escura e a chuva é ácida. O rádio não pega e a TV não tem nada que presta. Na verdade, confesso, não leio jornais, só as manchetes. Na banca, de pé. Você viu só o preço dos jornais??
 
25 abril 2005
posted by Paulo Vivan at 11:04 AM

Ao descer as escadas, você ouve fracos sons de passos vindos de trás. Você pára, seu coração bate mais rápido. Quando o silêncio retorna, você continua em frente com sua lanterna numa mão e uma espingarda na outra. A luz fluorescente da lanterna pouco ilumina os cantos escuros do corredor. Seu pé escorrega numa gosma inumana e por alguns momentos perde o equilíbrio, girando os braços para não cair. Algo atrás de você inspira súbita e profundamente enquanto o som de garras raspam o chão de metal. Você vira em direção ao som, mas é tarde demais. A criatura pula em sua direção, sua pele áspera, sua face uma massa disforme de carne amarela, seus olhos duas órbitas pretas gigantes e brilhantes. O cheiro de morte permeia o ar, enquanto você tenta se desvencilhar das garras que penetram na sua carne...

Mas chega de falar do novo papa, hoje eu quero falar de sobre comerciais de papel higiênico. Na verdade eu só queria fazer uma frase com "papa" e "comercial de papel higiênico" juntos. Afinal, o papa nunca faria um comercial desses. Na verdade, colocariam um filhote de Golden Retriever pra pegar um rolo para seu dono, que, por um azar imenso, ficou sem papel higiênico! Diabos de vida! Se o papel vier babado ele sempre pode limpar a bunda no cachorro.
 
11 abril 2005
posted by Paulo Vivan at 2:04 PM

BILHETE ÚNICO PARA O CÉU

Esses dias, a única coisa pior que o calor bíblico que assola São Paulo, é o calor bíblico que assola São Paulo dentro de um ônibus. E eu uso o termo "calor bíblico" porque não conheço outra maneira de lidar com esse calor, a não ser rezando.

E rezar dentro do ônibus me lembra de Jesus. O que me faz pensar que ele não aguentaria esse calor. Jesus não tomava ônibus. Se bem que, segundo os desenhos da interpretação renascentista de Jesus, ele usava robes e mais robes. Talvez o calor fosse parecido. Mas, acredito que a chave para o sucesso do refresco de tais vestimentas era a abolição da cueca. Só pode ser isso. Tem que ser isso.

Se não bastasse o calor, vendedores de bala, se passando por Samuel L. Jackson, recitam seus monólogos em plenos pulmões. Quando o volume de sua voz subitamente aumenta, o vendedor solta seus gritos-proféticos-apocalíptcos e culmina com o preço. Mas eu nunca, nunca compro. Balas e profetas não se misturam.

O ônibus, talvez, passe Arca de Noé. Salva passageiros do eventual dilúvio de fim de tarde. Infelizmente, ninguém deixa a janela aberta. Deve ser para não deixarem as baratas escaparem. Ah, esqueci de mencionar. Avistei três baratas dentro do ônibus, aos meus pés. Deve ter sido a primeira tentativa de pegar um casal de cada espécie.
 
07 abril 2005
posted by Paulo Vivan at 2:43 PM

SÃO PAULO E A IRA DE DEUS

São Paulo é uma cidade à prova de pragas bíblicas:

1 - Águas em Sangue:
Pode trazer. Sério, que venha. Seria uma dádiva rios com águas sangrentas. De verdade. Os bancos de sangue festejariam horrores. Tamaduateí, Pinheiros, Aricanduva, Tiête. - a cidade de São Paulo já lida com águas em merda há muito tempo, seria uma mudança ótima. Pelo menos não ia feder.

2 - A praga das rãs:
Dou um prêmio pra quem, em São Paulo, avistar uma rã. Mais uma vez, seria ótima a presença delas. Daria aos nossos ratos algo pra comer.

3 - Piolhos:
A não ser que sejam piolhos de Krypton, qualquer farmácia resolve o problema. Aliás, faz tempo.

4 - Moscas:
Estão todas em Guarulhos.

5 - Peste no gado:
Ninguém mais come carne nessa cidade. Ou comem frango, sushi ou McDonalds. Carne, jamais.

6 - Úlceras e tumores:
Com esse trânsito e poluição, não me admira. Não há nada de bíblico nisso, então, eu culpo os perueiros. Ah, motoboys também, está tão fácil... E os caminhões, não posso esquecer dos caminhões. Quando o Rodoanel ficar pronto, tudo isso acaba, foi o que eu ouvi falar.

7 - A Saraiva:
Com mais de 10 lojas e presente nos principais shoppings da cidade, possui uma enorme quantidade de livros, CDs e DVDs. No mais, não faço idéia o que Saraiva significa.

8 - Gafanhotos:
Minha praga favorita. Mas, que terror eles trariam para a cidade? Iam comer a vegetação? Acho que não ia fazer muito bem pra eles – o pouco que temos de sobra. Sim, eles podiam até atrapalhar o trânsito, mas só iam conseguir a suspensão temporária do rodízio. O que seria até um alívio.

9 - Três dias de escuridão:
Depende do caso. Já tivemos apagão, e, de vez em quando, chove até ficar preto. Fora o cinza permanente do céu. Sinceramente, ninguém dá a mínima

10 - A morte dos primogênitos:
Um quarto só pra mim.
 
05 abril 2005
posted by Paulo Vivan at 10:50 AM

SOBRE BOAS MANEIRAS E RESPEITO

Imagine você numa festa de um amigo de um amigo. Você se mistura com os outros convidados, conversa um pouco aqui, conversa um pouco ali, no geral, relacionando-se bem com todos, mesmo quando não partilha do mesmo ponto de vista ou opinião. Você não grita muito menos nem gesticula agressivamente para cima de estranhos, não pula nervoso no sofá nem chama ninguém de idiota ignorante. Você se contém.

Conversar com as pessoas usando a premissa de que elas são inteligentes sempre dá certo. Claro, nem sempre elas são inteligentes. Na verdade, elas podem cuspir e urinar no chão, só um pouquinho, sim. Elas podem até ganir e cheirar as glândulas de outras pessoas, e até de gatos e cachorros. Ocasionalmente podem até subir em árvores, tentando abocanhar passarinhos. Isso você só descobre conversando. Não tire conclusões precipitadas.

Obrigado e por favor são palavras cruciais. Use obrigado tanto para aceitar ou negar, não sinta-se acanhado quando precisar dar uma resposta negativa. Não há nada de errado em negar, por exemplo, diga não se a comida cair no chão ou se a comida se mexer. Na verdade, negue e agradeça qualquer comida. Coma só conteúdo de latas – apenas se a ferrugem for externa. Caso precise de algo, sempre, eu digo, sempre diga “por favor”. “Por favor, tire essa faca do meu peito, caro senhor” ou “Por favor, poderia dar ré com seu carro? Meu filho está debaixo do pneu dianteiro” são exemplos perfeitamente aceitáveis.

Ao se despedir, sempre deixe a impressão de que gostou ou pelo menos reconheceu os esforços de seus anfitriões – mesmo que seu corpo esteja em chamas. Acredite, se você estiver em chamas, o anfitrião vai perceber, não há porque deixá-lo mais constrangido.
 
04 abril 2005
posted by Paulo Vivan at 9:28 AM

RESULTADOS

- Sérgio, contabilidade, pois não.
- Sérgio, é o Fábio. Você pode vir na minha sala um instante?

Sérgio entra todo sorridente na sala do gerente.
- Bom dia, chefe, tudo bem?
- Certo, certo. Sérgio, me explica uma coisa... O que é isso?
- Esse é o meu relatório do trimestre.
- Não, não. Isso eu sei. Eu quero saber o que é ISSO?? - Fábio aponta para várias carinhas felizes desenhadas em todos os zeros do relatório.
- Ah, isso é resultado daquela palestra.
- Que palestra??
- Otimismo no local de trabalho.
- Eu acho que não foi isso que eles tinham em mente, Sérgio.
- Ah, mas não diga que ficou ruim, né? Ficou o máximo! Só de olhar pra esses números eu já ficava deprimido. Como é que alguém pode ficar deprimido com tantos smiles assim?
- É. Er... Eu até que dei risada!
- Pois então! Ainda mais neste trimestre que a empresa apresentou números deprimentes, algo tinha que estar feliz, pra cima... Sabe como é...
- Ok, ok, você tem razão. Mas, Sérgio, o pessoal do departamento tem reclamado de outra coisa...
- O que é chefe?
- Eles querem que você pare de cantar.
- Mentira!
- Verdade, Sérgio. Eles não aguentam mais ouvir "Tente outra vez". Muita gente nem gosta de Raul Seixas.
- Bem, não posso dizer que é meu favorito também, chefe. Mas, diabos, aquela música me inspira! Ainda mais quando tenho que cobrir os desvios de verba ou falcatruas no imposto de renda que...
- Certo, certo. Tudo bem. Pode cantar.
- Eu juro que arrumo outra música. Estou inspirado hoje!
- E Sérgio...
- Sim, chefe. – responde Sérgio com um sorriso de orelha a orelha.
- Er... Pode parar de me fazer massagem agora.