17 março 2005
posted by Paulo Vivan at 2:24 PM

8 ANOS PARA SEMPRE

De que adianta crescer, virar adulto e ter dificuldade em imaginar qualquer coisa? Não digo coisas do tipo “minha mulher está me traindo?” ou “será que estou gorda?”. Isso não tem graça. O melhor de ser adulto é que o repertório para imaginar coisas absurdas é muito maior. Mas, como todo bom recurso, deve ser aplicado com uma ferramenta apropriada. É por isso que congelei minha idade mental em 8 anos. Não sei explicar a conta, mas você queria o que de alguém que tem 8 anos?

Nada como um exemplo. Eu observei um pai e seu filho conversando do outro lado da rua. O filho faz uma cara feia.
- Pai, porque você não me deu nada no Natal este ano?
- Sinto muito filho, o Papai está com muitas dívidas.
Chegam dois homens e todos se cumprimentam.
- Olha só quem chegou, filho. Nestor e Ronaldo.
- Olá, Fernandinho.
Fernandinho parece preocupado.
- Filho, para sanar minhas dívidas, você vai ficar um tempo com esses dois rapazes.
- Sim, Fernandinho. Não vai ser nada demais. Só usaremos seu intestino para levar drogas para o Uruguay. Você será o nosso mulinha.
- E sabe da melhor? – diz o outro homem – A droga não vai entrar pela sua boca!
Todos riem alto e Fernandinho vai no colo do homem, feliz da vida.

Desencana. Nada disso realmente aconteceu, mas e daí? Mas, droga, melhor planejar o próximo texto antes de escrever. O que me leva às 5 etapas do planejamento.

1) Me preocupar como o que escrever.
2) Conversar com os meus amigos e estranhos na rua sobre o que escrever.
3) Cantar e dançar uma música sobre o problema.
4) Escrever.
5) Me vangloriar de ter escrito.
6) Cantar e dançar outra música para comemorar.

Foram 6, mas eu tenho 8, se quiser corte a 3 ou a 6, mas não corte as 2 senão não terá 5. Tenho 8 anos, mas meu sol não tem dois olhos e uma boca quando eu desenho. Uma que seria realmente monstruoso se o sol tivesse uma boca e dois olhos, outra que dói mesmo olhar pro sol.
 
09 março 2005
posted by Paulo Vivan at 3:50 PM

Ele chegou sem roupas nem pasta em casa. Ela só perguntou da pasta. Não que ele se importasse, mas, diabos, ele estava pelado. Não que ela se importasse, afinal, ela não se importa mesmo. E assim, pelado, ele foi ler o jornal. E assim, sentada, ela via a cena como se quisesse mudar de canal. Se pudesse.

Determinar de onde vem a culpa é inútil, uma vez que já meteram a colher na relação. O terapeuta. Terapia de casal. Encontre algo novo. Mude a rotina. Certamente, a terapia era uma quebra, mas só contribuiu para acertarem os horários. Das 19 às 20 horas, de terças e quintas, eles brigavam. E o terapeuta anotava. Ou desenhava. Às vezes só rabiscava. Nunca disse nada, por medo de estragar uma briga que, apesar de tudo, era muito boa.

Era o que tinham de melhor: as brigas. Sem dúvida, eram mestres nisso. Os insultos cada vez mais espetaculares, aprimoravam o vocabulário do casal – e dos vizinhos. Ninguém em sã consciência se atrevia a parar algo tão perfeito, tão fluído, tão caloroso.

Até que o terapeuta resolveu falar. Nem ele lembra o que foi que disse. Mas, isso foi o fim. O que ele disse realmente acabou com as brigas. E, embora ambos ocasionalmente tentassem entrar em conflito, de uma maneira ou de outra, o conselho do terapeuta pôs tudo que era de bom no relacionamento à perder. Para os vizinhos, assistir aquele casal agora era como ver uma criança autista morrer de tristeza.

Ele e ela foram vistos de mãos dadas na rua, sábado passado.
Tudo que é bom tem um fim.