28 fevereiro 2005
posted by Paulo Vivan at 11:05 PM

MUSICAL, O MUSICAL

Às vezes acho que sou tolerante demais. Eu pego ônibus lotado, brigo com a família, tenho problemas amorosos, não tenho dinheiro suficiente.

Mas eu não canto meus problemas.

Sabe, todo mundo tem uma vida ruim. A não ser que você esteja lendo esse texto em um notebook com conexão wireless via satélite, que você aproveita a tela de 20 polegadas pra apoiar seu drink enquanto navega pelos mares do Caribe em um iate luxuoso que está sendo perseguido por atrizes pornôs em jet-skis com micos-ninjas-ajudantes. Daí sim, sua vida pode ser legal. Mas o simples fato de você estar na Internet agora já confirma seu fracasso como ser humano. Pense nisso: existem milhares de pessoas lá fora, ocupadas demais escalando montanhas e construindo navios piratas para estar na Internet. Não posso dizer o mesmo de nós.

E mesmo assim você não vê pessoas como nós cantando, vê? Esta noite mesmo, eu finalmente fui naquele maldito Burger King e pedi o maior sanduíche possível, e, quer saber? Esqueceram a maionese. Adimito: eu fui ao banheiro e chorei um pouquinho. Não foi um choro de maricas, mas sim raivosas lágrimas másculas seguidas de urros guturais. E é isso que me separa dos Andrews Lloyds Webers lá fora: eu posso ter meus sonhos destruídos, meu futuro depredado, e sim, eu posso ficar trinta minutos chorando no banheiro, e sim, eu posso também urinar no carro do gerente do Burger King, e sim, eu realmente considero processá-los, mas eu não cantarei sobre meus problemas. O mundo já é uma merda sem eu adicionar minha voz horrenda à cacofonia.

E é isso: eu não respeito quem expressa seus pesares aleatóriamente atráves da música. Sua vida é uma merda? Então pega um número, trouxa, e pare de sapatear.

E outra, sapateado: Quem é que aguenta isso?
 
12 fevereiro 2005
posted by Paulo Vivan at 12:24 AM

GUARULHOS, O MUSICAL

Alguém me convidou uma vez para assistir um musical em Guarulhos. Era uma história comemorativa do aniversário da cidade, logo, o musical se passava em Guarulhos.

Bem, alguns musicais já começam errado, não é? Você pode contratar os melhores cantores e compositores do mundo para criar melodias maravilhosas que não saem da cabeça. Você pode contratar estrelas famosas para fazer o seu musical brilhar e brilhar. Você pode ter um roteiro perfeito e uma direção maravilhosa. Mas o fato é: se seu musical se passar em Guarulhos, será uma merda.

Eu gostaria de me desculpar a todos os moradores de Guarulhos que estão lendo isso agora... Não porque eu continuarei insultando sua cidade, mas porque eu fico com vergonha de ver que vocês são burros demais para empacotar suas coisas e sair desse buraco fétido e infernal que vocês moram e chamam de cidade.

Guarulhos e, simplesmente, o pior lugar do planeta. O terreno todo é encoberto por um tipo de névoa pesada e gordurosa, uma mistura de fumaça de escapamento, suor e almas apodrecidas que você sente o cheiro assim que entra na Grande São Paulo. E não culpe o Tietê. É Guarulhos mesmo. Sabe quando naqueles filmes futuristas de ficção científica onde os nobres heróis moram em arranha-céus e de vez em quando tem que descer até as entranhas da cidade, onde tudo é enferrujado e sujo e mutantes desdentados com testas imensas e lepra correm de um lado para o outro com clavas? Bem, essas são as partes boas de Guarulhos. É uma cidade onde ninguém sabe dirigir, todo mundo fede, e noções primitivas de lei e moral não se aplicam à seres humanos.

Se você acha que estou sendo injusto, preste atenção: Guarulhos é onde eu vi um cara numa fila para comprar refrigerante abaixar as calças para coçar a bunda. Porque coçar a bunda por cima da calça de moleton que ele usava não era suficiente, assim como enfiar a mão dentro da calça. Não, este maravilhoso e viril espécime de Guarulhos abaixou a calça com uma mão, e enterrou a outra no meio das nádegas para seu alívio, na frente de centenas de pessoas numa praça de alimentação. Se você mora em Guarulhos, esses são seus vizinhos e amigos.

Não existe esporte na sua cidade. Suas mulheres são feias. Sua água tem um gosto como se um ser celestial descesse dos céus e usado o reservatório municipal para lavar sua virilha brilhante. Não existe música na sua cidade. E quer saber porque sempre tem neblina no seu maldito aeroporto? É porque Deus odeia sua cidade tanto quanto nós odiamos ela.

E quanto ao musical, eu nunca fui ver. Mas, como era em Guarulhos, tenho certeza que era horrível.

Ei, Guarulhos! Vai se foder.
 
02 fevereiro 2005
posted by Paulo Vivan at 10:44 PM

A REGRA DO BEIJO

Como um músculo que atrofia quando você não exercita, o cérebro reage da mesma maneira. Caminhos que não são mais usados se enfraquecem. Caminhos neurológicos que foram criados a muito custo por anos e anos de experiências e experimentações, esses caminhos ditam nossas particulares habilidades, o quão precisas elas serão.

E fazia muito tempo, mas muito tempo mesmo que eu não jogava uma pedra num determinado ponto, digamos, a cabeça de alguém. Mas eu tinha que tentar. Afinal, eu nunca gostei daquele cara. E lá estava ele, numa posição quase perfeita, e eu, no segundo andar, numa sacada do outro lado da rua.

Eu sei que eu não devia, já tenho idade suficiente, mas isso não quer dizer que eu seja adulto. Aliás, acho que nunca serei adulto. Dá muito trabalho. Mas, voltando ao cara e o que eu fiz. Lá estava ele, comendo um cachorro-quente que eu desejava com todas as minhas forças que tivesse contaminado com salmonella. Ou pedras. Qualquer coisa.

Peguei a pedra num vaso da sacada.
Mirei.
Ele passou ketchup.
Levantei o braço.
Ele abriu a boca e levou o cachorro-quente a boca.
Joguei o peso do meu corpo, arqueando o braço.
Tocou o celular.
Soltei a pedra.

Errei, porra.

E o infeliz já estava terminando o sanduíche. Eu procurei desesperadamente por uma pedra enquanto atendia minha mãe no celular.
- Oi, filho, tudo bem?
- Não, não acho uma pedra.
- Pedra? Filho, o que é isso?
- Pedra, mãe, eu quero uma pedra! Eu preciso de uma pedra logo!!!

Desliguei o telefone com minha mãe achando que eu era um viciado em crack. Mas, tudo bem. Nada disso importava. Eu já tinha virado o vaso no chão e cavava incessantemente atrás de uma outra pedra. Nada. Comecei a arremessar os pedaços da planta. Sem sucesso. Eram muito leves, não chegavam nem perto. Terra, pedaços do vaso, eu já estava jogando qualquer coisa. E ele já havia acabado seu lanche a atravessava a rua na minha direção. Ele e uma pequena multidão. Todos interessados num doente jogando plantas e terra da sacada do segundo andar de um prédio.

A polícia também chegou. Acho que o porteiro chamou. Fora que eu nem estava na minha casa. E o cara que eu odiava? Também não era ele. Mas chegou a hora de eu dar explicações para os donos do apartamento, para o zelador e para a polícia. Foi daí que eu lembrei da regra do beijo*:
- Eu vi uma lagartixa. Odeio lagartixas.

(do inglês Kiss: keep it simple, stupid!)