18 fevereiro 2004
posted by Paulo Vivan at 12:28 PM

No ponto de ônibus todos devem olhar para o mesmo lado. Quem olhar para o lado oposto não deve olhar nos olhos das pessoas. Evite contato visual, essa é a regra. Mas hoje um cara quis ser diferente.
Ele ficava exatamente na linha visual de todos, e olhava nos olhos de todos. Dava pra perceber o quão inquietas as pessoas ficavam. Alguns se mexiam, mudavam de posição, fuçavam na carteira pra desviar o olhar, mas o homem não arredava pé. Continuava olhando na direção errada. Somente ele.
Esse ato poderia ser caracterizado como resistência, ir contra a maré, contracultura. Enquanto isso, o tempo médio de espera por um ônibus se multiplicava por três. Alguns se perguntavam qual era o problema desse homem. Até que uns ali, outros aqui, começaram a conversar. Logo estavam todos conversando. Unidos. Um assunto em comum - fora a espera pelo ônibus.
Se o homem fosse embora as pessoas continuariam conversando? Se ele virasse e esperasse o ônibus os outros conversariam com ele? Se ele continuasse olhando, o que as pessoas fariam? Não sei dizer, meu ônibus chegou e fui embora.
 
17 fevereiro 2004
posted by Paulo Vivan at 9:45 AM

O LIVRO MAIS LEGAL DE TODOS OS TEMPOS

O livro mais legal de todos os tempos foi aquele que eu joguei na cabeça da professora de matemática embora ela não saiba quem foi até hoje e depois disso eu fui lá embaixo porque minha classe era em cima e desci correndo a escada na hora do intervalo com o livro na mão e ela nem percebeu mas aí eu tirei a primeira página fiz uma bolinha e joguei na cabeça da Juliana e o legal foi que ela nem percebeu e comecei a correr e fui parar no pátio onde parei pra tomar um gole do refri do Pedro e acabei jogando bola o recreio todo mas quando eu voltei abri uma página do livro e li tudo ao contrário e dei risada pra caramba mas o Pedro não entendeu daí falamos sobre a cara do professor novo de educação física mas que cara mais feio e esquisito usa a calça lá em cima mas quando eu saí do colégio fui a pé pra casa e eu odeio pomba então rasguei outro pedaço do livro e joguei nelas mas elas não voaram então joguei um pedaço da capa que era capa dura aí funcionou o bom foi que quando eu cheguei em casa a minha mãe não tava daí eu não precisei tomar banho e só faltam três páginas pra acabar de ler o livro.
 
16 fevereiro 2004
posted by Paulo Vivan at 11:19 AM

DEBAIXO DA MINHA MESA

Deixei cair uma caneta debaixo da minha mesa no trabalho. Fui pegar a caneta e olhei pra cima, vi a parte de baixo da mesa. E lá eu vi coisas grudadas, várias. Um chiclete, uma bala, uma caneta no chiclete, um número de telefone, um poema, uma meleca, um post-it sem nada escrito, um cardápio de pizzaria, um donut pela metade, um grampo, uma asa de barata, uma foto do Jimi Hendrix, uma impressão digital, meia receita de bolo, uma xícara de café, uma tampa de Pringles, uma nota promissória e um cartão telefônico.
 
13 fevereiro 2004
posted by Paulo Vivan at 11:42 AM

INFERNO: UMA VISITA GUIADA

Olá. Meu nome á Pol Pot e sejam bem-vindos ao Inferno. Nesta visita guiada, mostraremos as principais dependêcias, torturas, câmaras e fossos deste nosso querido ambiente de trabalho. Acompanhem-me, por favor.

Vocês devem estar se perguntando o que é a primeira coisa que acontece quando você chega ao Inferno. Bem, esta parte é uma das mais divertidas e a coisa mais dolorosa que podemos fazer com uma pessoa recém chegada. Mostramos para assassinos, estrupadores, enfim, qualquer um qualificado, todos os prazeres nâo-ditos e infinitos que estavam a espera deles no Paraíso, se eles tivessem tido uma vida correta. Nada mais engraçado do que ver zumbis sem dentes mascando os intestinos recém expostos dos recém chegados, enquanto eles assistem o pessoal que está no Céu beber de um rio de vinho tinto. Isso que é diversão. Logo, teremos monitores com imagens no Céu em todos os cantos do Inferno.

Nesta sala temos os terroristas, homens-bomba e afins. Este aqui, pena que ele não pode falar, ele sempre engasga com as vespas, besouros e cupins que vivem no estômago dele. Prometeram pra ele a eternidade no Paraíso, onde bolos cobertos de mel seriam servidos por 67 virgens num jardim verdejante se ele desse sua vida num atentado. Mas aqui alimentamos ele com fezes de traidores e cortamos os dentes dele com uma faca cega três vezes por dia. À noite, um demônio vem e fura os olhos dele só pra beber o líquido que escorre pela sua face.

Desde 11 de Setembro de 2001, temos muitos deles que chegam indignados com esse tipo de tratamento. Entendo que certas pessoas não estão preparadas para serem sodomizadas no buraco do olho, nem serem impaladas e assadas como um espeto de churrasco. O mundo não é justo, crianças.

Vamos em frente. Aqui é onde políticos corruptos são usados como profiláticos por demônios gigantes com pênis espinhudos. É uma cena dolorosamente excitante. Lembrando que apagamos a memória desses políticos a cada 15 minutos, assim, cada vez que eles sofrem, é como se estivessem sofrendo pela primeira vez. É lindo.

Eventualmente, designamos uma tarefa eterna e infinita para todos. Mas, no começo, todos querem um pedacinho de cada um que chega no Inferno. Temos um cronograma semanal. Na segunda porcos dentuços com línguas de lâmina comem pequenos pedaços da carcaça dos nossos inquilinos. Na terça, eles tem sua carne derretida e descolada dos ossos num abraço de um demônio flamejante. Quarta, quinta e sexta eles são sodomizados pelos Caídos e suas entranhas são dilaceradas por um diabinho que ejacula areia fervente na face deles. Sábado, eles trabalham no McDonald's e no domingo, Satanás passa o dia com eles.

Até logo, e espero ver vocês novamente!
 
10 fevereiro 2004
posted by Paulo Vivan at 6:18 PM

PISCINA DE ÁGUA SALINIZADA

Tal que eu realmente gostaria de encontrar esse tal de inventor dessa tal de piscina de água salinizada. Que coisa mais idiota. Que coisa mais idiota. Que coisa mais idiota. Pois é. Eu acho isso idiota.
Toda a graça de uma piscina é que ela não é salgada. Ela tem água doce. Água sem sal. Agora querem piscinas com sal. Pro mar morto quem quiser sal! Daqui a pouco querem piscinas com areia. Aí vai ser ótimo. Ei, que tal piscina com peixes, algas e águas-vivas? Isso ia ser super. Tenho certeza que ia fazer um puta sucesso.
Aí alguém me disse que tudo isso é por causa do cloro. Eu amo cloro. Morra você quem não gosta de cloro. E esse mesmo alguém me disse que é por causa das loiras, que não podem entrar nas piscinas com cloro, pois seu cabelo fica verde. Aqui caberia uma bela piada sobre loiras, piscinas e cabelo verde, mas deixa pra lá. E o mesmo alguém disse que não tem muito sal nas piscinas, só um pouco.

Legal. Piscina de soro fisiológico. Dá pra entrar de lente de contato, pelo menos.
 
09 fevereiro 2004
posted by Paulo Vivan at 4:32 PM

COLHER DE AÇÚCAR

Elisa, garota sapeca, menina de 7 anos. Terror dos professores, estragada pelos avós, orgulho dos pais. Dias da semana na escola, tardes no clube, fins de semana no sítio.
Café, almoço, jantar. Favoritos, os doces, os sucos. Melhor de todos, o preferido, a colher de açúcar. Colher de sopa, colher de chá, colher de sobremesa. Enfia no pacote, enfia na boca, tira vazia. Boca seca, boca doce, boca de criança.
Preguiça chegou, tampa não fechou, açúcar ao léu. Elisa dormiu, a mãe cobriu, o pai saiu. Formiga chegou, formiga entrou, formiga inimiga.O sol nasceu, café da manhã, pão na mesa. A menina com a colher, a colher no açúcar, formiga na colher.
A mãe gritou, Elisa chorou, o açúcar não presta. O café amargou, o suco azedou, o pai reclamou. A garota não quer mais açúcar, a mãe quer mais açúcar, o pai quer um pouco de sossego.
 
06 fevereiro 2004
posted by Paulo Vivan at 2:31 PM

FRANCAMENTE

- Sérgio... Sérgio, Sérgio, Sérgio. O que há com você?
- Nada, chefe.
- Como, “nada”? Você veio trabalhar hoje sem calças! Sem calças!
- Vou te falar a mesma coisa que eu disse pro segurança... Sinto-me preso com calças. Todos aqueles zíperes e bolsos e costuras. Não é pra mim.
- Já considerou calças de moletom?
- Sabe, chefe... É uma questão de princípios. E sou alérgico a algodão.
- Sérgio... Ninguém é alérgico a algodão. Isso é mentira.
- É. Tá certo. Não sou alérgico a algodão.
- Sabendo disso, então como você explica, além de vir sem calças, vir sem cuecas?
- Francamente...
- Francamente?
- Coça. Coça muito!
- Deixe-me ver... Nossa! Tá vermelho mesmo. Você está passando alguma coisa?
- Não.
- Você precisa ir ao médico.
- Não dá.
- Por que?
- Não dá pra entrar sem calça no hospital.
- Mas e se você for baleado, Sérgio?
- É. Boa idéia. O senhor me dá um tiro?
- Claro! Só assine esse termo de compromisso antes.
- Combinado.
- E, Sérgio?
- Sim...
- Tire a foto da minha esposa da sua mesa, ok?
 
03 fevereiro 2004
posted by Paulo Vivan at 11:07 PM

BOB

Grandes atores são realmente surpreendentes. Me sinto inspirado com tamanho comprometimento e habilidade. Por exemplo, quantos de vocês assistiram O Último Samurai? Acredito que bastante gente. Viram aquele samurai que era o responsável pelo personagem de Tom Cruise? O "Bob", aquele que é um tipo de guarda, carcereiro. Pois então. Aquele ator é o Robert de Niro!
Robert de Niro é tão bom ator que ninguém percebeu que ele estava no filme. Imagine só chegar nesse nível de atuação. É incrível! Dizem que o trabalho dos grandes atores não deve ser exagerado, mas imperceptível. Robert de Niro em O Último Samurai quebrou essa barreira, tornando-se imperceptível fisicamente, assumindo de tal maneira o personagem que ninguém percebeu. E está fora da corrida do Oscar, justamente por isso.