SAPATOS-CRUÉIS
Ana sabia que hoje teria que comprar um novo par de sapatos, e o vendedor Carlos já tinha ajudado ela a experimentar todos os pares da loja. Carlos disse:
- Bom, esses foram todos os pares de sapatos que eu tinha aqui.
- Ah, você tem que ter mais um par...
- Não, mais nenhum par... Bem, nós temos os sapatos-cruéis, mas ninguém usaria...
Ana o interromepeu:
- Oh sim, deixe me ver esses sapatos-cruéis!
Carlos não pôde acreditar.
- Não, Ana, você não está entendendo. Sabe, os sapatos-cruéis são...
- Pegue-os!
Carlos desapareceu no fundo da loja por um momento, até retornar com uma simples caixa de sapatos. Ele abriu a tampa e tirou de dentro um tenebroso, preto e branco, par de sapatos.
Mas esses não eram um par tenebroso, preto e branco, qualquer; ambos eram pé esquerdo, um tinha uma curva em ângulo reto com compartimentos separados que apontavam os dedos do pé em direções impossíveis. O outro sapato tinha 10 centímetros de comprimento e era curvado pra dentro como uma cadeira de balanço, e tinha também várias e afiadas lâminas para segurar o pé no lugar.
Carlos, hesitando, falou:
- ...Agora você vê porque... Eles não foram feitos para seres humanos...
- Coloque-os em mim.
- Mas...
- Coloque-os em mim!
Carlos sabia que qualquer argumento seria inútil. Ele se ajoelhou na frente dela e forçou seus pés pra dentro dos sapatos.
Os gritos eram incríveis.
Ana rastejou até o espelho e segurou seus pés sangrentos aonde ela podia vê-los.
- Gostei.
Ela pagou Carlos e se arrastou pra fora da loja.
Mais tarde no mesmo dia, se você estivesse na loja, poderia escutar Carlos falando com uma nova cliente:
- Bom, esses foram todos os pares de sapatos da loja. A não ser, é claro, que você queira provar os
sapatos-cruéis.